CONSULTORIO DA PISICOLOGA HELENA,RICARDO ESTA SENTADO NO DIVAN,A LUZ DA JANELA É A ÚNICA FONTE DE LUZ DO LUGAR,O SILENCIO PERMANECE POR UM BOM TEMPO,ELE AFROUXA A GRAVATA
Metamorfose ambulante:POR RABU GONZALES
-Como está hoje?
-Um pouco melancólico, mas de certa forma melhor.
-Como está em casa?
-Clima de euforia, ontem foi o primeiro dia de aula do Fernadinho, não sentia algo tão bom desde que ele nasceu.
-E como foi?
-Eu tava mais nervoso do que ele, depois que ele entrou na escolinha ainda fiquei esperando um tempo, achando que ele sairia a qualquer momento com medo, besteira, quase perdi a hora do trabalho.
-Quem bom, uma adaptação rápida.
-Sim, quando fui buscá-lo ele disparou a falar sobre seu dia, seus novos amiguinhos. Me contive pra não chorar.
-E como está sua esposa?
-Eu tenho uma esposa que pedi a Deus, uma amiga, quase uma mãe. Se um dia rolar algum problema em nosso casamento saiba que a culpa vai ser sempre minha.
-Que bom ouvir isso, você é um homem de sorte.
-Sim, sou.
-Quer falar um pouco sobre o passado?
-Não sei se estou preparado.
-É uma decisão que você tem que tomar por impulso, não pode ficar adiando.
-Você tem razão. Ainda me sinto uma criança quando falo de tudo que aconteceu, principalmente sobre ele.
-Seu pai?
-Sim, até os oito anos acreditava que ele estava morto, pelo menos era o que a minha mãe dizia. Ela e minha tia tentavam ser a mãe e o pai que não tive, mas quando lidava com a vida via que não era a mesma coisa. Ainda me lembro quando o telefone tocou, minha mãe estava trabalhando, e minha tia ocupada com almoço me pediu para atender, fiquei paralisado com o telefone na mão.
-Era ele?
-Sim, meu pai. Minha tia não entendia minha subta paralisação. Fiquei ali, quieto, ate minha mãe chegar, quando meu viu com aquela cara já fui logo falando ‘Papai ligou’. Não tinha mais jeito dela esconder a história.
-E qual era essa história?
-Ela havia conhecido um cara, bonito, sedutor de extremo bom humor que a deixou apaixonada como nunca, foi tudo muito rápido, quando viram já estava grávida, não tinha dado tempo de conhecê-lo realmente.
-E ele tinha um lado que se manifestou?
-Simplesmente era ladrão. Foi preso por roubo a uma joalheria no dia que minha mãe soube que estava grávida. Ela se sentiu traída, criou-se um ódio, e naquele momento ela o matou dentro de si. Mas ele ressuscitou naquele telefonema, estava pra sair sobre condicional e queria me conhecer. Com minha cara de felicidade por ter um pai, ela não poderia fazer nada para impedir, então fui conhecê-lo.
-E como foi?
-O dia mais feliz da minha vida. Eu que nunca tinha tido um pai, de repente aparece ele, meu herói. Era bonito, engraçado, carinhoso, mal poderia esperar pra chegar à escola com ele, todos amiguinhos com inveja porque seus pais não passavam de velhos barrigudos e carecas. O meu era um super herói, ele ia me buscar todo fim de semana, a gente ia passear, brincar, depois íamos pra sua casa, quer dizer, casa de um amigo onde ele estava morando, que vivia cheia, sempre tinha festa lá.
-E como sua mãe reagia a tudo?
-Ela mudou muito desde que ele apareceu. Às vezes a via discutindo com ele, ficava com a cara sempre amarrada quando ele ia me buscar. Às vezes parecia que queria me dizer algo, mas como me via o tempo todo feliz não falava nada.
-E o que aconteceu?
-Simplesmente o dia mais triste da minha vida. Era pra ser mais um fim de semana daqueles, com muita diversão, minha mãe me deixou lá na casa dele, quando eu entrei estava um alvoroço, todos vestidos de Raul Seixas.
-Como assim?
-É que todo ano lá na minha cidade rolava um festival enorme com concurso de sósias de Raul Seixas, com premiação e tudo. Meu pai era louco por Raul, e quando ele se vestia como ele ficava muito parecido, estavam todos assim vestidos, o único que não ficou parecido foi o cromado, porque ele era um negão enorme, mas tava muito engraçado. Então, fomos pro festival, estava sendo uma tarde maravilhosa, vários brinquedos, sorvetes, famílias reunidas, só faltava mamãe com a gente. Foi quando ele olhou nos meus olhos e disse ‘Você é o homenzinho do papai não é?’, respondi ‘Sou’, ele continuou dizendo ‘Então o papai vai ali rapidinho com os rapazes ver umas coisas e já volto, quero que você me espere aqui do lado desse brinquedo, como um homenzinho combinado?’, concordei e ele disse ‘Sem medo, papai tem muito orgulho de você’.
-E o que aconteceu?
-Eles atravessaram a rua, foram direto pra joalheria, fizeram o assalto, correram pro meio do festival pra se misturarem com outros covers de Raul e confundir a polícia. Rolou um pânico, eu me desesperei, fui procurar por ele, mas no meio de tantos Rauls... Até aquele momento, eu que não tive pai até os oito anos, de repente, pra aonde eu olhava havia um pai.
-E o que aconteceu?
-Um Raul Seixas viu meu desespero, pegou em minha mão e me encaminhou pra produção do evento. Minha mãe chegou em seguida, me abraçou muito e disse ‘Sinto muito querido, pode deixar que vou cuidar de você’.
-E nunca mais você viu seu pai?
-Nunca mais!
-É uma história e tanto. Agora temos um bom ponto para começarmos, mas infelizmente ficará pra próxima, seu tempo acabou, mas espero que ter contato tudo isso tenha ajudado.
-Com certeza, me aliviou muito, muito obrigado Doutora Helenna.
-Nada, só estamos começando. Felicidades pra família!
Ele sai e vai pela rua, segurando seu terno no ombro, com ar de mais tranqüilo, quando de repente avista um cantor de rua com seu violão e a frente um chapéu com algumas moedas cantando Raul Seixas. Ele se aproxima e vai se emocionando com a música, que é cortada por gritos de PEGA!PEGA Quando ele se volta para traz vê um homem aparentando uns 45 anos, correndo com uma roupa de prova de maratonanumeraçao 171, e atrás policiais em seu encalço. À medida que vai se aproximando ele reconhece a figura, é seu pai, que ao reconhecê-lo também faz uma cara de espanto. Os dois ficam frente a frente por um momento, se olham emocionados, logo no outro lado da esquina surge um grupo enorme de maratonistas, ele olha para eles, olha para o pai.
-Pode ir papai, eu entendo.
-Esse sou eu filho, mas nunca deixei de te amar por isso.
-Eu sei!
O pai continua correndo, se mistura no meio dos maratonistas, e o músico de rua começa a cantar:
‘EU PREFIRO SER ESSA METAMORFOSE AMBULANTE... ’
ouça a musica ao final da leitura-ps-nem sou fan de raul seixas

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